Por Mauricio Colin, presidente do SIFESP
Ao longo da minha trajetória na indústria, sempre enxerguei o trabalho como um dos maiores instrumentos de transformação de vida.
A indústria, em especial, sempre teve um papel fundamental nisso.
Quantas histórias conhecemos de pessoas que começaram em funções operacionais e construíram carreiras sólidas?
Pessoas que cresceram profissionalmente, sustentaram suas famílias, compraram sua casa, formaram seus filhos e conquistaram dignidade por meio do trabalho.
A indústria brasileira ajudou a construir milhares, talvez milhões dessas histórias.
Mas, sinceramente, tenho me perguntado:
Será que estamos perdendo, aos poucos, o orgulho de trabalhar na indústria?
Não se trata de saudosismo.
O mundo mudou.
As novas gerações enxergam carreira, equilíbrio de vida, propósito e realização profissional de forma diferente.
E isso merece respeito.
Mas também precisamos fazer algumas perguntas difíceis.
O que aconteceu com a atratividade da indústria?
Em muitos setores industriais, enfrentamos uma dificuldade crescente para atrair profissionais para funções de base.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que muitos jovens sequer consideram a indústria como uma opção de carreira.
Será apenas uma questão salarial?
Ou existe algo mais profundo acontecendo?
Talvez, sem percebermos, tenhamos deixado enfraquecer a narrativa da indústria.
“Falamos muito sobre dificuldades, custos, pressão e problemas.
Falamos pouco sobre crescimento profissional, aprendizado, tecnologia, inovação e o orgulho de produzir algo que melhora a vida das pessoas.
Nos últimos dias acompanhei um debate interessante provocado pelo Reinaldo Oliveira, Dr. . Houve quem defendesse que, em alguns casos, seria melhor para o Brasil fechar fábricas e manter apenas centros de distribuição de produtos importados.
Independentemente da estratégia individual de cada empresa, essa ideia me preocupa quando passa a ser vista como um caminho para o país.
Porque, quando uma indústria fecha, não perdemos apenas uma fábrica. Perdemos engenharia, tecnologia, fornecedores, empregos qualificados, conhecimento acumulado e oportunidades para milhares de jovens construírem uma carreira.
Talvez isso também ajude a explicar por que estamos perdendo o orgulho de trabalhar na indústria: Deixamos de enxergá-la como um patrimônio estratégico para o desenvolvimento do Brasil.
A valorização do trabalho também precisa voltar ao centro da discussão.
Existem problemas reais.
Temos uma educação fragilizada, baixa produtividade, informalidade crescente e dificuldades econômicas.
Mas também me preocupa quando começamos a normalizar a ideia de que esforço, disciplina, aprendizado e construção profissional perderam importância.
Nenhum país cresce de forma sustentável sem pessoas preparadas, motivadas e acreditando no próprio futuro.
Ao assumir a presidência do SIFESP, uma das preocupações mais recorrentes nas conversas com empresários foi justamente esta:
Como tornar novamente a indústria mais atrativa?
Como despertar o interesse dos jovens?
Como aproximar empresas, escolas técnicas e novas gerações?
Como reconstruir o orgulho de pertencer ao ambiente industrial?”
Tenho convicção de que nenhuma empresa resolverá isso sozinha.
Mas acredito profundamente na construção coletiva.
Precisamos voltar a mostrar que a indústria não é apenas um lugar de trabalho.
Ela pode ser um ambiente de crescimento, formação, inovação, propósito e realização profissional.
Continuo acreditando profundamente na indústria brasileira.
Mas talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
Como atrair os jovens para a indústria?
Talvez devêssemos perguntar:
Estamos, como sociedade, demonstrando que ainda acreditamos na indústria brasileira?
Porque, se nós mesmos deixarmos de acreditar no valor de produzir, inovar e construir aqui, será muito difícil convencer as próximas gerações de que vale a pena construir uma carreira na indústria.

