Por Maria Carolina Garcia, Portal Fundição em Foco
Os números mais recentes da indústria brasileira de fundição trazem, à primeira vista, um cenário preocupante. Embora julho tenha registrado uma recuperação pontual da produção, com alta de +2,3% sobre junho, o setor ainda opera em patamares significativamente inferiores aos de 2025.
No acumulado de janeiro a julho, a produção brasileira de fundidos recuou -14,9% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a ABIFA (veja o balanço completo Aqui). Mas olhar apenas para esse percentual pode levar a uma interpretação incompleta do momento vivido pelo setor.
Uma análise mais detalhada dos dados revela que a retração da fundição está longe de ser homogênea. Ao contrário, ela está fortemente concentrada nos fundidos de ferro, enquanto aço e, principalmente, alumínio demonstram uma capacidade de resistência muito maior.
Os números deixam essa diferença evidente: Enquanto a produção de fundidos de ferro caiu -17,7% no acumulado do ano, a de aço recuou apenas -4,4%. Entre os não ferrosos, a queda foi de somente -1,4%, e o alumínio — responsável pela maior parcela desse grupo — praticamente repetiu o desempenho de 2025, com variação de apenas -0,1%.
Mais do que retratar uma indústria simplesmente em queda, portanto, os dados apontam para uma fundição brasileira que atravessa realidades bastante distintas, dependendo do metal, dos mercados atendidos e da exposição de cada segmento à demanda interna e externa.
E é justamente essa diferença que merece ser analisada.
FERRO EM CRISE
Entre janeiro e julho, a indústria brasileira de fundição produziu 222,3 mil toneladas a menos do que no mesmo período de 2025.
O dado, por si só, já chama atenção. Mas é a composição dessa perda que revela onde está, de fato, o principal foco da retração: 213,7 mil toneladas desse volume correspondem exclusivamente aos fundidos de ferro.
Isso significa que aproximadamente 96% de toda a queda da produção brasileira de fundidos em 2026 está concentrada em uma única categoria: O ferro.
Esse percentual muda totalmente a perspectiva sobre os números do setor.
Mais do que uma retração generalizada da indústria brasileira de fundição, os dados apontam para uma crise fortemente concentrada nos fundidos ferrosos.
A pergunta, então, deixa de ser apenas “Por que a fundição brasileira está caindo?” e passa a ser outra: “Por que os fundidos de ferro estão sofrendo tanto, enquanto aço e, principalmente, alumínio demonstram uma resistência muito maior?”
POR QUE OS FUNDIDOS DE FERRO ESTÃO SOFRENDO TANTO?
Uma primeira explicação está no perfil dos mercados consumidores.
Os fundidos de ferro têm presença importante em caminhões, ônibus, máquinas agrícolas, máquinas e equipamentos, implementos e outros bens de capital — segmentos particularmente sensíveis ao custo do crédito, às condições de financiamento e, principalmente, às decisões de investimento das empresas.
Os números da indústria automotiva ajudam a compreender essa relação e revelam, inclusive, um aparente paradoxo.
Segundo a Anfavea, a produção brasileira de autoveículos cresceu +8,3% entre janeiro e julho de 2026. O avanço, entretanto, vem sendo puxado principalmente pelos veículos leves, enquanto os pesados vivem uma realidade bem diferente.
No primeiro semestre, as vendas de caminhões recuaram -10,5% e as de ônibus, -11,6%. Julho trouxe alguma reação para o mercado de caminhões, mas não suficiente para reverter o resultado do ano: No acumulado, as vendas ainda registravam queda de -7,2%.
Para a indústria de fundição, essa diferença é particularmente relevante. O crescimento da produção de automóveis não necessariamente compensa a retração de caminhões, ônibus, tratores ou máquinas pesadas, considerando a quantidade e o peso dos componentes fundidos empregados nesses produtos.
Voltando aos números da fundição, há ainda outro fator a se considerar: As exportações brasileiras de fundidos de ferro despencaram -22,4% em volume no ano. São cerca de 36,6 mil toneladas a menos destinadas ao exterior.
Esse comportamento também coincide com as dificuldades observadas na cadeia automotiva exportadora, cujos embarques caíram -20,8% até julho.
Assim, a queda de -17,7% na produção de fundidos de ferro começa a encontrar explicações bastante concretas. Não há um único responsável, mas uma combinação de fatores que atuam simultaneamente:
Mercado externo mais fraco + desempenho negativo dos veículos pesados + menor dinamismo dos segmentos ligados a máquinas, equipamentos e bens de capital.
Juntos, esses movimentos ajudam a explicar por que os fundidos de ferro concentram 96% de toda a perda de produção da indústria brasileira de fundição em 2026.
AUTOVEÍCULOS – TRANSFORMAÇÃO ESTRUTURAL EM CURSO
Há, porém, outro movimento que precisa entrar nessa análise — e este parece ser um caminho sem volta: A composição dos veículos está mudando.
Em julho, os eletrificados já representavam 23,5% dos emplacamentos brasileiros, contra menos de 11% há um ano. No acumulado de 2026, as vendas desse grupo cresceram expressivos +120,8%.
Paralelamente, avança a utilização de materiais mais leves na indústria de transportes. Segundo a ABAL, o consumo de alumínio pelo setor brasileiro de transportes aumentou +26% entre 2021 e 2024, impulsionado, entre outros fatores, pela busca por redução de peso, eficiência energética e descarbonização.
Seria precipitado — e tecnicamente irresponsável — atribuir à eletrificação a atual queda da demanda por fundidos ferrosos. Os dados disponíveis não permitem estabelecer essa relação direta de causa e efeito.
Mas ignorar a transformação estrutural em curso também seria um erro.
A indústria automotiva continuará demandando fundidos. A questão é que essa demanda tende a assumir uma composição diferente daquela observada historicamente.
E O AÇO?
Os fundidos de aço também apresentam uma dinâmica diferente daquela observada no ferro.
A produção ficou praticamente estável entre junho e julho, com leve alta de +0,3%, enquanto a retração acumulada no ano, de -4,4%, permanece bastante inferior aos -17,7% registrados pelos fundidos de ferro.
Mas é no comércio exterior que surge o movimento mais interessante desta categoria.
Em julho, as exportações brasileiras de fundidos de aço saltaram +96,5% em volume, na comparação com junho. Em valores, o avanço foi ainda maior: +101,8%.
É uma reação expressiva, mas que precisa ser interpretada com cautela.
Ainda não é possível falar em tendência ou retomada consolidada. O movimento pode refletir contratos ou embarques pontuais, característica possível em um segmento que atende aplicações industriais específicas e, muitas vezes, peças de maior valor agregado.
Além disso, o acumulado do ano continua negativo, o que reforça a necessidade de observar o comportamento dos próximos meses antes de apontar uma mudança de trajetória.
Por enquanto, é apenas um sinal que merece ser acompanhado de perto.
NÃO FERROSOS: EXPORTA-SE MAIS, E POR MAIOR VALOR
Talvez um dos dados mais interessantes de toda a balança comercial da fundição esteja justamente nos não ferrosos.
Na comparação entre janeiro e julho de 2026 e igual período de 2025, o segmento apresenta um movimento particularmente favorável:
- Volume exportado: de 2.602 para 2.827 toneladas (+8,6%)
- Valor exportado: de US$ 6,99 milhões para US$ 9,36 milhões (+33,9%)
A diferença entre os dois percentuais chama atenção. Enquanto o volume embarcado cresceu +8,6%, a receita avançou praticamente quatro vezes mais: +33,9%. Em outras palavras:
O Brasil não apenas está exportando mais fundidos não ferrosos, como está obtendo mais dólares por tonelada embarcada.
Fazendo uma conta simples, o valor médio FOB das exportações passou de aproximadamente US$ 2.685/t em 2025 para US$ 3.310/t em 2026, uma valorização próxima de +23% por tonelada.
É um indicador importante, embora sua origem exija cautela na interpretação.
O movimento pode refletir uma combinação de fatores, como mudança no mix de produtos exportados, maior participação de peças com valor agregado, comportamento dos preços internacionais dos metais, câmbio, destinos das exportações ou características específicas dos contratos fechados no período.
Sem uma abertura dos dados por produto ou NCM, não é possível determinar quanto cada um desses fatores contribuiu para o resultado. Ainda assim, sob o ponto de vista econômico, exportar simultaneamente mais volume e obter maior valor médio por tonelada é um desempenho bastante positivo.
E o contraste com os fundidos de ferro torna esse resultado ainda mais relevante.
Nos ferrosos, ocorreu justamente o movimento inverso: O volume exportado caiu -22,4%, enquanto a receita recuou ainda mais (-24,6%).
Isso significa que, além da forte perda física dos embarques, não houve valorização por tonelada capaz de amortecer o impacto da retração do mercado externo.
Mais uma vez, os números reforçam a tese que atravessa toda esta análise:
Sob a queda geral da indústria brasileira de fundição, existem segmentos vivendo realidades muito diferentes.
CONCLUSÃO
O objetivo desta análise foi justamente ir além do índice geral de retração da indústria brasileira de fundição e compreender como ferro, aço e alumínio participam de maneiras muito diferentes desse resultado em 2026.
Há, evidentemente, uma peça importante que ainda falta nesse quebra-cabeça: Os dados de importação de fundidos. Conhecer o comportamento das compras externas no período permitiria avaliar se parte da perda da produção nacional está relacionada à substituição por componentes importados e proporcionaria uma leitura mais completa do mercado.
Ainda assim, os números disponíveis permitem uma conclusão relevante: A retração da fundição brasileira em 2026 está fortemente concentrada nos fundidos de ferro.
Julho, primeiro mês do segundo semestre, trouxe sinais positivos. Mas ainda é cedo para interpretar esse movimento como uma mudança consistente de trajetória.
Os fatos são:
- O ferro concentra a crise.
- O aço apresenta sinais pontuais de reação.
- O alumínio emerge como o segmento mais resiliente, sustentado por mercados e tendências tecnológicas que vêm modificando o perfil da demanda.
Voltamos, assim, à pergunta que abriu esta matéria:
“A fundição brasileira está em crise?”
Os números mostram que há, sim, uma retração importante e que seus efeitos não podem ser minimizados. Mas mostram também que a realidade é mais complexa do que o índice geral de -14,9% faz parecer.
Mais do que uma única crise da fundição, o que temos diante de nós são segmentos atravessando o mesmo ambiente econômico, em velocidades — e direções, bastante diferentes.
| Os números da indústria de fundição apresentados nesta matéria podem ser conferidos em: Clique Aqui! |

