Por Maria Carolina Garcia │ Portal Fundição em Foco
Desde o lançamento do Portal Fundição em Foco, há 4 meses, a hashtag #OportunidadeDeTrabalho foi a mais utilizada em nosso blog. O curioso é que essa explosão de vagas não está, necessariamente, associada a um boom de produção do setor, infelizmente.
O cenário é muito mais complexo — e revela mudanças profundas no mercado de trabalho brasileiro.
Enquanto as fundições (e seus fornecedores) ampliam contratações, muitas delas enfrentam o mesmo problema: A dificuldade para preencher essas vagas. E quando conseguem, é difícil reter aquele colaborador.
Por quê?
👉 O novo concorrente da indústria: O trabalho independente
O modelo CLT, como o conhecemos, deixou de ser prioridade para milhões de brasileiros.
- 59% preferem trabalhar por conta própria (Datafolha, 2025)
- A renda dos MEIs chega a ser 42,7% maior do que a de trabalhadores formais (FGV-SP, 2024)
A pandemia certamente acelerou essa mudança: O tempo se tornou um ativo valioso.
E os aplicativos e plataformas digitais oferecem justamente aquilo que muitos buscam:
- maior autonomia
- flexibilidade total
- menos pressão
- ganhos variáveis
Por outro lado…
A indústria oferece algo que nenhum aplicativo entrega: Estabilidade, desenvolvimento, carreira e pertencimento.”
(Maurício Colin, presidente do SIFESP)
E isso sim se sustenta a longo prazo!
👉 A indústria perdeu centralidade no imaginário dos trabalhadores?
Um levantamento da Fiesp (jan–mar/2025) revelou que 20,5% das indústrias paulistas não conseguem preencher as vagas ofertadas.
Uma análise unilateral com base nestes dados, sugere que “sim, a indústria deixou de ser atrativa”.
Mas uma visão mais ampla dos fatos revela que, talvez, o problema seja outro: “O modelo trabalhista atual não conversa mais com as expectativas pós-pandemia”.
👉 O que a nova geração realmente quer?
Uma pesquisa realizada pelo SENAI/SESI, com o apoio da Agência Alemã de Cooperação Internacional, mostrou que os jovens brasileiros de 14 a 29 anos enxergam o mercado de trabalho com um olhar diferente das gerações anteriores, que exige adaptações por parte do empresariado.
O que mais atrai jovens a uma vaga?
- Salário – 41%
- Possibilidade de crescimento – 21%
- Benefícios complementares – 20%
O que mais os afasta?
- Baixa remuneração – 50%
- Estresse – 28%
E um dado animador:
49% dos jovens têm interesse em trabalhar na indústria; índice que sobe para 41% entre os que têm 25 a 29 anos e já buscam algo mais estável.
Ou seja, a longo prazo, 53% acreditam que a indústria pode atender às suas expectativas de carreira e renda, o que significa que A indústria não perdeu sua relevância — ela perdeu sua narrativa.
👉 O que precisa ser feito agora? (E não daqui a cinco anos)
O desafio é imediato. E exige ações em diferentes frentes:
1️⃣ Construir uma marca empregadora forte
- Propósito, impacto humano, responsabilidade social e modernização são tão importantes quanto salário.
2️⃣ Formar líderes para o novo tempo
- Líderes acolhedores, comunicativos, justos e preparados para dar feedback constante.
3️⃣ Criar uma cultura inclusiva, transparente e meritocrática
- Crescimento precisa ter critérios claros.
- Avaliação por competências não pode ser opcional.
- Comunicação interna precisa ser estratégica.
4️⃣ Remuneração estratégica por produtividade
- Sem pagar melhor, não há retenção.
- Sem produtividade, não há como pagar melhor.
5️⃣ Investir em saúde mental e ambiente saudável
- Ergonomia, segurança e acolhimento contam — especialmente para quem está entrando agora no setor.
A fundição precisa formar líderes continuamente, modernizar ambientes, estruturar o RH e aproximar-se das escolas técnicas. Hoje existe um grande descompasso entre o que o setor precisa e o que é ensinado.”
(Maurício Colin, presidente do SIFESP)
👉 A equação que precisamos resolver juntos
Estamos diante de um ajuste global no conceito de trabalho, carreira e propósito.
De um lado:
- fundições e fornecedores modernizando, crescendo e criando vagas;
- falta de mão de obra qualificada;
- currículos escolares desalinhados com a prática;
- jovens desistindo antes de começarem.
Do outro lado:
- trabalhadores valorizando autonomia, tempo, flexibilidade e propósito;
- modelos de gestão que ainda não acompanharam essa mudança;
- competição com MEI, aplicativos e economia digital.
A conclusão é simples:
A indústria precisa se reinventar.
E o trabalhador precisa se qualificar.
Para prosperar, o setor de fundição — e toda a cadeia produtiva — terá que:
- reconstruir sua proposta de valor como empregador;
- profissionalizar a gestão e a liderança;
- aproximar-se da academia;
- criar ambientes que combinem desenvolvimento, respeito e produtividade.
Só assim construiremos uma indústria mais forte, mais humana, mais qualificada e mais preparada para o futuro.

| Fonte: Portal Fundição em Foco |


