Entre os dias 6 e 9 de maio, o Portal Fundição em Foco esteve representado pela Asian House na Metal China 2026, maior feira da indústria de fundição da China. O evento reuniu mais de 1.200 expositores e atraiu cerca de 150 mil visitantes, entre eles 35 brasileiros participantes da Missão Metal China 2026, liderada por Yasmim Ding, CEO da Asian House.

Além da visita à feira, a Missão promoveu visitas técnicas estratégicas às empresas Suzhou Suzhu Intelligent Equipment Co., Ltd., em Suzhou, e Changjian Huaxin Robot Parts Nantong Co., Ltd. (CHR), em Nantong.
A programação foi estruturada para proporcionar uma visão prática e aprofundada sobre o atual cenário da indústria chinesa de fundição, com foco em tecnologia, automação, inovação industrial, desenvolvimento de fornecedores e geração de oportunidades de negócios para o mercado brasileiro”.(Yasmim Ding, CEO da Asian House)
Organizado pela CFA – China Foundry Association, apoiadora do Portal Fundição em Foco, o evento também sediou a International Foundry Industry Exchange Conference, conferência internacional que apresentou um panorama atualizado da indústria global de fundição.

A seguir, reunimos alguns dos principais destaques da apresentação da WFO – World Foundry Organization, que trouxe um panorama dos cinco maiores produtores de fundidos do mundo — responsáveis, juntos, por 76% da produção global:
- China: 50,75 milhões de toneladas
- Índia: 15,16 milhões de toneladas
- Estados Unidos: 11,3 milhões de toneladas
- Japão: 4,5 milhões de toneladas
- Alemanha: 3,4 milhões de toneladas
CHINA
Em 2001, a produção chinesa de fundidos totalizou 14,19 milhões de toneladas. Após atingir o pico histórico em 2021, com 54,05 milhões de toneladas, o país encerrou 2024 com a produção de 50,75 milhões de toneladas, acumulando retração média anual de aproximadamente 2,2% nos últimos três anos.
Distribuição da produção chinesa por metais (2024)
- Ferro fundido cinzento: 41%
- Ferro fundido nodular: 27%
- Ligas de alumínio e magnésio: 16%
- Aço: 12%
- Cobre: 2%
- Ferro fundido maleável: 1%
- Outros: 1%
Distribuição da produção chinesa por mercados (2024)
- Automotivo: 30%
- Tubos e conexões: 14%
- Máquinas pesadas para mineração e metalurgia: 10%
- Motores de combustão e máquinas agrícolas: 9%
- Máquinas de engenharia: 9%
- Máquinas-ferramenta: 5%
- Equipamentos de geração de energia e instalações elétricas: 5%
- Transporte ferroviário: 4%
- Naval: 1%
- Outros: 13%
Highlights
- As incertezas econômicas globais têm reduzido os investimentos industriais em diversos setores.
- China e Europa concentram cerca de 80% das exportações globais de equipamentos metalúrgicos. Enquanto o mercado europeu enfrenta desaceleração, a China segue em expansão.
- Observa-se um movimento crescente das exportações chinesas em direção a regiões emergentes, fortalecendo sua posição na cadeia global de valor.
- Tendências industriais:
- peças estruturais biônicas e carcaças inteligentes;
- engrenagens, acionamentos e atuadores de alta resistência em designs integrados e leves;
- componentes 3D projetados e fabricados individualmente.
- A transformação tecnológica permanece como fator central de competitividade, impulsionada pela digitalização, materiais de alto desempenho, eficiência energética e descarbonização.
ÍNDIA
Em 2024, a Índia produziu 15,16 milhões de toneladas de fundidos, crescimento de 7% em relação ao ano anterior.
Distribuição da produção indiana por metais (2024)
- Ferro fundido cinzento: 68,73%
- Metais não ferrosos: 11,35%
- Ferro fundido nodular: 10,62%
- Aço: 8,97%
- Ferro fundido maleável: 0,33%
Highlights
- Acordos de livre comércio com mercados estratégicos vêm impulsionando a atividade exportadora do país. Em 2025, as exportações indianas de fundidos totalizaram US$ 4,313 bilhões, crescimento de 5% sobre 2024.
- Expansão do setor de defesa.
- Modernização da infraestrutura ferroviária.
- Crescimento da produção de peças fundidas de maior valor agregado, especialmente ligas não ferrosas e fundidos de precisão voltados ao mercado automotivo leve.
- Aumento dos investimentos em automação, novos processos e controle avançado da qualidade.
- A economia indiana deverá crescer entre 6,3% e 6,8% no período 2025–2026.
Fatores que impulsionam o crescimento econômico indiano
- Forte demanda doméstica, tanto rural quanto urbana;
- Investimentos públicos e expansão da infraestrutura;
- Base econômica diversificada entre manufatura e serviços;
- Cenário internacional favorável, incluindo queda nos preços de commodities.
ESTADOS UNIDOS
Os Estados Unidos possuem atualmente 1.742 fundições, responsáveis por 118.726 empregos diretos. Em 1954, o país contava com 5.012 fundições; em 2010, eram 2.084 empresas.
A capacidade instalada norte-americana é de 19 milhões de toneladas anuais. Em 2024, o país produziu 11,3 milhões de toneladas de fundidos, sendo 65,5% de metais ferrosos e 34,5% de não ferrosos.
Distribuição da produção norte-americana por metais (2024)
- Ferro fundido cinzento: 4,3 milhões t
- Ferro fundido dúctil: 3,1 milhões t
- Alumínio: 1,6 milhão t
- Aço: 1,1 milhão t
- Zinco: 404,2 mil t
- Cobre: 354,0 mil t
- Magnésio: 141,9 mil t
- Ferro fundido maleável: 32,6 mil t
- Outros metais não ferrosos: 53,3 mil t
Highlights
- O país importa cerca de 11% da matéria-prima utilizada por suas fundições.
- Pesquisa realizada com fundições norte-americanas apontou como principais preocupações:
- demanda por fundidos;
- inflação e aumento de custos;
- seguros e regulamentações federais;
- treinamento e qualificação de mão de obra.
- O aumento do consumo energético provocado pela expansão de data centers tem pressionado a rede elétrica e elevado os custos de energia para o setor.
- Nos últimos dez anos, em média 12 fundições encerraram atividades anualmente, refletindo um processo contínuo de consolidação do mercado.
Outro destaque foi o anúncio da Stratecasts, que, em parceria com investidores e desenvolvedores industriais, pretende implantar o maior complexo de fundição dos Estados Unidos. O projeto combinará automação avançada, sustentabilidade e alta capacidade produtiva para atender aos mercados aeroespacial, de defesa, transporte e infraestrutura.
JAPÃO
Em 2024, a produção japonesa de fundidos totalizou 4,5 milhões de toneladas, retração de 7% em relação ao ano anterior.
Distribuição da produção japonesa por metais (2024)
- Ferro fundido cinzento: 36,5%
- Ferro fundido nodular: 27%
- Die casting: 20,1%
- Alumínio: 8,1%
- Tubos em ferro fundido: 3,8%
- Aço: 2,6%
- Cobre: 1,3%
- Ferro fundido maleável: 0,6%
- Microfundidos: 0,1%
ALEMANHA
Em 2024, a Alemanha produziu 3,4 milhões de toneladas de fundidos:
- Metais ferrosos: 2,57 milhões t
- Metais não ferrosos: 790 mil t
Desde 2017, a produção alemã vem registrando queda média anual de 6%, o equivalente a aproximadamente 2,2 milhões de toneladas no período.
O país possui 208 fundições de metais ferrosos e 306 de não ferrosos, empregando cerca de 65 mil colaboradores.
Highlights
- A desaceleração da demanda automotiva global impacta diretamente o desempenho da indústria alemã de fundição.
- Apesar do número relativamente reduzido de fundições, a Alemanha permanece entre os cinco maiores produtores mundiais.
- Em comparação com a Turquia, que possui 965 fundições, a produção alemã é 28,7% superior, mesmo contando com apenas 514 empresas.
REFLEXÃO – O CASO BRASIL
Utilizando a mesma base de comparação, o Brasil produziu 2.791.288 toneladas de fundidos em 2024, segundo dados da ABIFA. Este volume é 20,5% inferior ao da Alemanha, quinta maior produtora mundial naquele ano.
A competitividade da indústria brasileira continua em deterioração. Juros elevados, carga tributária complexa, insegurança jurídica, alto custo de energia, baixa produtividade e escassez de mão de obra estão entre os fatores que pressionam o setor.
Soma-se a isso a falta de políticas industriais mais consistentes e previsíveis para fortalecimento da competitividade, ampliando os desafios enfrentados pelas empresas brasileiras.
Diante desse cenário, Maurício Colin, presidente do Sifesp, faz a seguinte reflexão:
O que nós, como industriais organizados, podemos fazer juntos para mudar parte dessa realidade?”
E complementa:
Precisamos usar o que temos de melhor: Dados técnicos, propostas consistentes e o convencimento por meio de informações claras.”
Marcus Gimenes, vice-presidente da FIEP e participante da Missão Metal China 2026, reforça:
Precisamos de união para defender os interesses comuns. Nossos concorrentes externos estão ficando cada vez mais competitivos e invadindo nossos mercados. Sabemos que não temos uma política industrial há muito tempo, temos ações pontuais para ajudar um ou outro setor”.
CONCLUSÃO
Para a indústria brasileira de fundição, acompanhar de perto os movimentos dos principais players globais deixou de ser apenas uma oportunidade de benchmarking, passando a ser uma necessidade estratégica. A velocidade das transformações tecnológicas, a reorganização das cadeias produtivas globais e o avanço da competitividade internacional exigem do setor uma postura cada vez mais integrada, inovadora e orientada por dados.
Nesse contexto, iniciativas como a Missão Metal China 2026 tornam-se fundamentais para ampliar a visão de mercado das empresas brasileiras, aproximar o setor das principais tendências mundiais e estimular conexões capazes de gerar novos negócios, parcerias e oportunidades de desenvolvimento industrial.
| O Portal Fundição em Foco agradece à Asian House pela representação no evento |


O recado da Metal China 2026 é claro: competir hoje não é mais só produzir bem. É ganhar em eficiência, tecnologia, custo e velocidade.
Se a indústria brasileira não se organizar de forma mais estratégica e coletiva, corremos sério risco de perder ainda mais espaço para importados e ver nossa competitividade industrial encolher ano após ano.