Por Maria Carolina Garcia │ Portal Fundição em Foco
A fotografia atual da indústria brasileira revela um paradoxo perigoso: Enquanto diferentes elos da cadeia produtiva reclamam da concorrência externa — especialmente chinesa —, a maioria, em maior ou menor grau, recorre a ela para sobreviver no curto prazo. Fundidores criticam o fundido importado, mas compram máquinas do mesmo país. Montadoras reclamam da invasão dos carros chineses, mas importam peças. No fim, a conta não fecha para ninguém.
O crescimento recorde das exportações brasileiras de sucata ferrosa em 2025 é um sintoma claro desse desequilíbrio. Foram quase 886 mil toneladas exportadas (uma alta de 28,2% em relação a 2024), impulsionada não por ganho de eficiência, mas pela retração do consumo interno de aço. O próprio setor de reciclagem, via Inesfa – Instituto Nacional de Reciclagem, reconhece que não há motivo para comemoração: Exporta-se mais, porque a indústria nacional compra menos.
Em paralelo, o mercado interno de aço sofre a pressão de cerca de 6 milhões de toneladas anuais de produtos estrangeiros importados — principalmente chineses — em um mercado estimado em 36 milhões de toneladas. Trata-se de uma concorrência assimétrica, sustentada por subsídios de longo prazo, vantagens logísticas e um ambiente regulatório previsível no país de origem, enquanto a indústria brasileira opera sob juros elevados, carga tributária excessiva e insegurança institucional.
Esse mesmo padrão se repete na indústria automotiva. A possível prorrogação dos incentivos para importação de veículos eletrificados desmontados (CKD e SKD) escancara a fragilidade da Política Industrial brasileira.
A avaliação da Anfavea é contundente: Transformar a montagem simplificada em regra pode eliminar até 69 mil empregos diretos (75% da força de trabalho atual do setor) e outros 227 mil indiretos, além de gerar perdas bilionárias para o setor de autopeças, reduzir a arrecadação e comprometer as exportações.
Não se trata de estigmatizar o uso pontual desses regimes — eles fizeram parte da história de várias montadoras no Brasil —, mas de reconhecer que incentivos sem contrapartidas claras de nacionalização, engenharia local e agregação de valor criam um atalho que desestrutura toda a cadeia produtiva.
O resultado é um processo cumulativo de fragilização. A indústria nacional perde escala e competitividade, reduz investimentos, compra menos insumos internos e passa a depender ainda mais de importações. Cada elo tenta se defender individualmente, mas acaba reforçando o mesmo movimento que critica.
Se essa lógica prevalecer, o desfecho é previsível: Todos “morrem de mãos dadas”, e o país se converte em um grande mercado de serviços, montagens e revendas. Para um país com dimensões continentais, grande população e necessidades sociais profundas, essa é uma estratégia inviável de desenvolvimento – destrutível em todos os âmbitos.
No setor de fundição, os desafios estruturais agravam ainda mais o cenário. Carga tributária elevada, complexidade trabalhista, juros proibitivos e insegurança regulatória corroem a capacidade de investimento em tecnologia, inovação, qualificação profissional e melhores salários. Ignorar esses fatores distorce qualquer análise e transfere a culpa exclusivamente para a concorrência externa, quando o problema é, sobretudo, interno e sistêmico.
Qual é a solução?
Não existe resposta simples, mas o caminho passa necessariamente por uma Política Industrial consistente e de longo prazo. Isso significa alinhar incentivos a compromissos reais de produção local, conteúdo nacional, desenvolvimento tecnológico e integração das cadeias produtivas. Significa também atacar os gargalos estruturais — crédito, tributação, infraestrutura e previsibilidade regulatória — que tornam o Custo Brasil insustentável. E, sobretudo, exige coerência: Não é possível defender a indústria nacional enquanto se alimenta sua substituição silenciosa por importações em todos os níveis.
Sem coordenação, visão estratégica e responsabilidade coletiva, o Brasil continuará exportando sucata, importando valor agregado e discutindo culpados. Com Política Industrial, competitividade sistêmica e escolhas claras, ainda é possível transformar essa trajetória. Ou aceitar a desindustrialização como destino — e pagar o preço econômico e social dessa escolha.
| Fonte: Portal Fundição em Foco |



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